Wagner Campodonio
Desde os primeiros anos na escola sempre fui fascinado pela
professora (àquela época "tia") dizendo que os seres vivos nasciam,
cresciam, desenvolviam-se, reproduziam-se e morriam. Era fantástico para mim,
uma criança de uns cinco ou seis anos, descobrir aquelas coisas e saber que um
dia iria morrer. Mesmo sem entender direito o que era a morte e o que ela
significava, gostava da idéia de Ter um objetivo que querendo ou não iria
alcançar. Também achava boas as outras etapas antecedentes, principalmente a
tal da reprodução!
Pensei e ainda penso muito na morte. Talvez isso,
inconscientemente, tenha me levado à Biologia. A chance de renunciar à morte
desde o nome da profissão que escolhi. E na minha paixão maior, a Fotografia,
também tenho em mãos um artifício de imortalidade; minha como criador e das
imagens que por um breve instantes se desenrolaram à minha frente, congeladas
no tempo, como criaturas.
Muitos já falaram sobre a morte. A senhora sorrateira que tira o
sono de uns, dá descanso e paz a outros, abre as portas do inferno ou conduz
alguns à vida eterna no paraíso. E então? Quem não quer morrer? Faça a escolha.
Depois de tanto tempo tentando encarar a morte de frente, me
deparei com uma chance incrível. A de nunca morrer. Fiquei estarrecido. Pelo
menos geneticamente posso ter uma vida eterna. E não falo em passar meus genes
daquela forma velha e tradicional (ainda assim a melhor!), nem mesmo dando uma
"provetada" por aí. Falo da bastante divulgada clonagem. Técnica que
já vem sendo feita em animais não humanos há mais de dez anos e , se já não foi
feita, em breve alcançará nossa espécie, mesmo sob protestos e com resistências
por todo o mundo. Me perdoem se eu estiver assassinando a Genética aqui, sou
péssimo nessa área, mas a possibilidade de Ter um novo ser vivo geneticamente
idêntico a mim, me deixa um tanto assustado. Às vezes sinto-me assim quando
olho no espelho. Assustador! É bem verdade que esse novo eu seria completamente
diferente de mim no que tange à personalidade, devido aos fatores históricos e
ambientais aos quais possivelmente ele cresceria, mas mesmo assim meu clone me
deixaria apreensivo.
Fala-se muito na clonagem humana com o intuito do desenvolvimento
de células-mãe, possibilitando a cura de doenças diversas que acometem o ser
humano. Acho isso tão desastroso quanto à "cópia" genética
propriamente dita. Se com os avanços tecnológicos e da Medicina obtivemos, em
uma média global, um grande aumento na expectativa de vida no último século,
imaginem com essas novas técnicas, facilmente alcançaríamos cem, cento e vinte,
cento e cinqüenta anos. Me pergunto até que ponto isso seria bom, não só para
nós como indivíduos mas também como espécie. Sem falar da nossa nave Terra.
Essa, coitadinha, já sofre conosco morrendo "jovens" (com cerca de
setenta , oitenta anos), quem sabe o que aconteceria se estendêssemos cada vez
mais esse "sopra velinhas".
Vejo essa busca pela renúncia à morte através da clonagem como uma
atitude bastante egoísta, típica dos humanos. Parece que não queremos dar
espaço aos que virão e tampouco fazer companhia aos que se foram. Renegamos à
nossa ordem natural, à nossa natureza animal. A cada dia então percebo o quanto
os humanos estão próximos de se tornarem fósseis ou mesmo pedras sem nenhum
traço de vida anterior, mas eternas. Isso sim, não abro mão, imortal. Absurdo.
Já nem acho mais que queremos brincar de Deus, longe disso, nesse caminho vamos
nos encontrar alegres em um playground, brincando de sermos demônios e
capetinhas levados.
Então me lembro da "tia" lá da escola primária e percebo que ela sim é eterna, pelo menos enquanto eu viver e puder me lembrar dela. Vejo também que os humanos ainda não entederam que vieram ao mundo plantar sementes enquanto vivos e só essas sementes quando em frutos é que nos fazem realmente eternos, depois da morte. Valeu pró.