A água não é inesgotável
Wagner B. Campodonio
Toda vida existente na Terra nasceu da água e poderá desaparecer
pela própria água, por ser ela um dos elementos indispensáveis ao ecossistema
chamado Planeta Terra. No Planeta, 97% de toda água existente são salgadas; do
restante, água doce, apenas 0,03% estão fácies e diretamente disponíveis para o
uso do homem nos rios, lagos e subsuperfícies.
No caso particular do Brasil, o seu maior recurso hídrico e também
do Mundo, correspondendo a 20% de toda a água doce disponível no planeta, é a
bacia Amazônica que está distante das grandes concentrações urbanas e
industriais, o que implica, apesar dos outros recursos do país, tornar a água
doce um bem de extremo valor para as demais regiões.
Quantos as águas dos mares e dos oceanos que são os termostatos do
Planeta e a maior fonte de oxigênio pela fabricação intensa de sua rica flora,
via fotossíntese, sua degradação por processos oriundos da atividade humana
implica no desequilíbrio na biota, prejudicando o fornecimento do oxigênio, bem
como de alimentos em geral. Pode-se afirmar que o futuro próximo dependerá da
manutenção da qualidade da água doce, que é rara, e o futuro não muito
longínquo, da qualidade da água salgada.
Quanto às águas doces dos rios, e subsuperficiais, são essas que
devem constituir-se na prioridade imediata no que se refere à sua preservação
de qualidade por que são elas disponíveis e que dia após dia, todos fazem uso,
quer direta, quer indiretamente, como indivíduos ou coletivamente, através das
atividades industriais, agrícolas, de conforto etc. Em todos os casos, quer se
refiram às águas salgadas, quer às doce, os cuidados na preservação implicam
uma dívida que temos com as gerações que virão, pois estamos fazendo uso de
patrimônio que também lhes pertence.
O homem é o grande consumidor de água doce, quer direta, quer
indireta. Em números aproximados, temos que o consumo de sua família na cidade
é seis vezes maior que de outra família no campo; uma descarga sanitária
eqüivale a doze litros, e para encher-se uma banheira ou se lavar uma
quantidade de roupas na máquina o consumo é de 120 litros.
Mas se compararmos esses consumos, ditos diretos, com os
indiretos, a situação é alarmante. Se não vejamos: a feitura de um simples
pãozinho demanda 400 litros de água, se considerarmos as necessidades desde o
trigo que lhe deu origem. Um quilo de carne corresponde a 18.000 litros de água
que foram fornecidos direta ou indiretamente ao animal que lhe deu origem até a
carne estar pronta para o consumo. A produção de uma tonelada de milho requer
1,6 milhões de litros d'água, assim como 2,4 milhões de litros para uma
tonelada de borracha sintética e 1,3 milhão para uma toneladas de alumínio. Nas
mesmas proporções estariam os consumos na fabricação de fibras, papel, aço etc.
Daí se depreende que é imprescindível reutilizar a água doce em escala cada vez
mais crescente, mas esbarra-se no grande problema que é retornar às águas as
suas características mínimas que sirvam a esse propósito, extirpando sua
contaminação, ou seja, retirando da água usada os fatores que a poluíram.
No geral, degradação da qualidade das águas dos rios e lagos deve
ser pensada em dois aspectos: o primeiro vem a ser aquele que influencia na
cadeia alimentar diretamente, como, por exemplo, pelo transporte de um metal
pesado e que irá atingir o homem, elo final da cadeia, afetando a sua saúde; o
segundo se refere à qualidade da água propriamente dita, no que diz respeito
aos conteúdos orgânicos. A auto depuração das águas dos rios e lagos,
principalmente dos rios, felizmente, é notável, quanto à autoeliminação de
contaminações via matérias e substâncias orgânicas, desde que haja condições
adequadas para tal.
Vamos deixar de lado o primeiro aspecto e pensar na degradação que
se refere aos conteúdos orgânicos dos corpos d'água. Nesse caso, o elemento
fundamental a ser preservado nas águas dos rios e lagos é o oxigênio, e toda
degradação orgânica na sua qualidade passa pelo abaixamento da taxa de oxigênio
dissolvido, porque do oxigênio dependerá a vida animal contida na água e é essa
vida animal que realizará a importante missão de fazer funcionar todo um ciclo
que propiciará ao homem uma água saudável. Qualquer perturbação, seja por elemento
estranho ou por modificações físicas da massa líquida, que venha direta ou
indiretamente a reduzir o oxigênio nela dissolvido, degrada a qualidade da
água. Em outras palavras, polui.
As águas de um rio ou de um lago sustentam ou aumentam a taxa de oxigênio
dissolvido através de dois processos: agitação, quando a água capta o oxigênio
do ar pelo íntimo contato deste com a superfície líquida e pela fotossíntese,
quando a luz solar incide sobre uma vegetação aquática e realiza nela uma
reação bioquímica que resulta o oxigênio.
Ao analisarmos individualmente as atividades não naturais, devidas
exclusivamente ao homem, que geram alterações, direta ou indiretamente nas
taxas de oxigênio dissolvido, no sentido de abaixá-las ou de não mantê-las,
ficarão clara-mente indicados os procedimentos de preservação. Dessa forma,
todas as ações relativas ao emprego de agrotóxicos e adubos, aos
desmatamentos, aos efluentes industriais, aos lixos e esgotos domésticos etc.
devem corresponder atuações que tenham que ser amenizadas ou compensadas.
Outrossim, quaisquer que sejam as modalidades de degradação, enxergadas pelas
suas causas, os esforços de compensação concernentes devem, também, levar em
conta a complexidade das condições ambientais, os recursos disponíveis e potenciais
e visarem reduzir ao mínimo o aspecto predatório da utilização desses recursos.