REVISTA SUPEREXPERT

 Edição 02 - Ano I - 20 de Novembro de 2001

Cidade de Jaruara - Região de Cassiporé - República de Marajó

Editor: Wagner Bacciotti Campodonio


Textos desta edição: 

:: Meio Ambiente X Micronações

:: Coluna do Sapolino

:: Mate a cobra e mostre... Ignorância

:: SuperFrase

:: A Ciência e o Novo Milênio

:: A Guerra dos Sexos

:: Natureza em SuperDestaque

   

 


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Meio Ambiente X Micronações


 

Amigos, num local onde só há discussões sobre diplomacia, política e futebol, é difícil achar um espaço para se conversar sobre meio ambiente. Não pensem que falar de meio ambiente não tem relação com o micronacionalismo pois tem sim, pois não somos feitos de bits & bytes (pelo menos por enquanto...). Somos pessoas que vivem em cidades macronacionais e que, com certeza, apresentam incontáveis problemas relacionados ao meio ambiente. Podemos formar grupos de estudo sobre os problemas que são encontrados nas cidades, problemas com o desenvolvimento tecnológico, problemas com as condições miseráveis de muitas famílias e muito mais. Mas não só há problemas para serem discutidos. Afinal, a natureza nos presentei diariamente com espetáculos inenarráveis (embora não mereçamos tanto). Numa micronação podemos conversar sobre os fenômenos naturais, trocar fotos de seres vivos e estudar suas curiosidades. São muitas as possibilidades, e para este sonho tornar-se realidade, basta que tenha pessoas interessadas no assunto. Sendo assim, convido à todos aqueles que gostam de conversar, trocar informações e peculiariedades sobre os assuntos que mencionei, a virem participar da Revista SuperExpert, seja como colaborador enviando textos, notícias, ou o que surgir de interessante. Venha participar deste mundo natural, um mundo repleto de surpresas...

 

 

COLUNA DO SAPOLINO


Muitos são os MITOS que fazem parte do nosso relacionamento cotidiano com o Meio Ambiente. Tais situações prejudicam o nosso relacionamento com a natureza e impedem-nos de rever nossas atitudes. Acompanhe as REFLEXÕES do nosso amigo Sapolino em cima dos MITOS populares:

 

MITO

...a miséria das pessoas favorece e estimula a degradação ambiental; as comunidades localizadas nos bairros e nas favelas provocam a destruição e estimulam mais a miséria.

REFLEXÃO

...Quando se fala em meio ambiente, a discussão passa pelo modelo de desenvolvimento econômico, pela distribuição de renda, pela especulação imobiliária, que obriga as massas humanas menos favorecidas a se deslocarem para as áreas mais afastadas, muitas vezes invadindo e destruindo florestas e reservas naturais.  

 

MATE A COBRA E MOSTRE... IGNORÂNCIA


 

As serpentes estão entre os animais mais preconceituados e perseguidos da Terra. Isto é o inverso dos agradecimentos que o Homem deve ao seu papel na Natureza. As serpentes alimentam-se basicamente de roedores e é graças a esta atividade que a vida humana pode sobreviver. 

 

Se um camundongo gera, em média, 5 filhotes a cada 20 dias em um ano uma única fêmea produz 90 camundongos. Se desses 90 a metade for fêmea (45 indivíduos) e cada fêmea produzir 5 filhotes a cada 20 dias, descontados o período de maturação sexual, estas 45 fêmeas produzirão cerca de 4.000 camundongos por ano. Se uma única serpente come em média 10 camundongos por mês (e a metade for fêmea) ao final de um ano ele impediu o nascimento de 20.000 camundongos. Ou seja, cada serpente morta representa 20.000 camundongos a mais em nosso meio. 

 

Se as serpentes do mundo, que alimentam-se de roedores, fizessem um mês de greve de fome dificilmente a vida humana teria sustentação. O número de roedores seria gigantesco: as plantações seriam dizimadas, as doenças transmitidas pelos roedores ganhariam níveis alarmantes, as cidades seriam invadidas pelos roedores que, na falta de alimentos, comeriam fios e outros materiais que impediriam a transmissão de corrente elétrica e telefonia... Seria o caos. 

 

É verdade que serpentes peçonhentas causam diversos acidentes aos seres humanos. Mas sua matança estende-se mais ao preconceito e ignorância (no sentido de falta de informação específica...) do que a possibilidade de serem eliminadas por oferecerem real grau de perigo. 

 

Pense nisto quando ver alguém matando uma cobra simplesmente porque ela apareceu no caminho de seu passeio de fim-de-semana pela mata. 

 

Mate a cobra e ganhe 20.000 pontos negativos.

 

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SuperFrase 

 

"Os analfabetos do próximo século não serão aqueles que não sabem ler ou escrever, mas aqueles que se recusem a aprender, reaprender e voltar a aprender." 

 

Alvin Toffler, futurologista. 

 

A Ciência e o Novo Milênio



Por incrível que pareça, apesar de todos os avanços da ciência e tecnologia, os seres humanos são guiados hoje basicamente pelos mesmos instintos e paixões que os gregos há 2.500 anos. 

 

O início do século 21 e do terceiro milênio da Era Cristã é ocasião propícia para refletir sobre o que ocorreu nos últimos períodos históricos — e os jornais e revistas têm se dedicado a fazer longas listas dos grandes eventos verificados e quais as perspectivas para o futuro. As revistas científicas fazem o mesmo e elas nos convencem de que, sem a menor dúvida, o século 20 trouxe à humanidade enorme progresso científico e tecnológico. Mais do que qualquer outro avanço, a descoberta do eletromagnetismo no século 19 e a geração e propagação das ondas eletromagnéticas abriram caminho para a era da eletricidade e das telecomunicações, que revolucionaram a vida de grande parte da população mundial. 

 

Junto com os avanços da medicina que, efetivamente, prolongaram a vida humana, atingimos o fim do século 20 com horizontes promissores e um progresso material sem precedentes para parte significativa da população mundial. 

 

O mesmo argumento foi usado no fim do século 19, mas há uma reflexão nova e importante a fazer aqui: a ciência de então, laboriosamente construída na base das grandes teorias de Newton, influenciou decisivamente o pensamento de filósofos como Kant e cientistas sociais como Marx. Ela se baseava numa visão do mundo determinista e que descrevia os fenômenos que ocorriam ao nosso redor, isto é, era uma ciência formulada para as experiências dos seres humanos e não necessariamente a ciência em geral. Faltava a ela uma
compreensão mais profunda do que se passava em nível microscópico, ou seja, no nível dos átomos e no seu interior bem como o que se passava no nível dos cosmos.
 

 

Já no fim do século 19 começaram a aparecer indicações de que a visão do mundo era incompleta, pois fenômenos como a radioatividade e o próprio comportamento da luz ainda estavam inexplicados. A primeira metade do século 20 viu uma completa revolução nos conceitos físicos com a teoria da relatividade de Einstein e a mecânica quântica em que o determinismo dos fenômenos físicos foi seriamente abalado. 

 

Essa revolução, junto com os conhecimentos do século 19, impulsionou, contudo, a ciência e a tecnologia de tal forma que chegamos ao fim do século 20 com uma enorme confiança nas nossas visões do mundo, incluindo aí o conhecimento do código genético e a possibilidade de modificá-lo. Não há
outras revoluções científicas à vista, exceto, talvez, a que poderá resultar dos fenômenos que estão ocorrendo nas fronteiras do universo onde estranhas forças parecem estar em ação. Afora isso o século 21 (e o terceiro milênio) parece prometer mais progresso tecnológico do que científico, para o que os alicerces que temos hoje parecem bastar.
 

 

Isso só não acontecerá se a natureza humana impedi-lo, o que é bem possível. Por incrível que pareça, apesar de todos os avanços da ciência e tecnologia, os seres humanos são guiados hoje basicamente pelos mesmos instintos e paixões que os gregos há 2.500 anos. Essa é a razão pela qual as peças teatrais gregas com suas tragédias e comédias parecem tão atuais, bem como as peças de Shakespeare, que, apesar de escritas há quatro séculos, parecem ter captado o íntimo da alma humana mais do que quaisquer outras. 

 

Essa parece ser também a razão pela qual a experiência da União Soviética fracassou, bem como outras tentativas de organização social baseadas nos grandes ideais dos socialistas do século 19. Basicamente elas se recusaram a aceitar a idéia que em diferentes sistemas sociais e econômicos — quaisquer que eles sejam, socialistas ou capitalistas — muitos indivíduos agirão de forma competitiva afim de melhorar o próprio status, conquistar o poder e
servir aos seus interesses ou do seu grupo.
 

 

Tais características podem levar a distorções, a guerras e até à destruição de certas civilizações, do que existem muitos exemplos ao longo do tempo. 

 

Nos nossos dias há um ingrediente novo, que é a enorme capacidade que criamos de degradar o meio ambiente, conseqüência do nosso modo de produção e consumo predatório. Ele exacerba as tendências destrutivas das sociedades humanas como parece ter feito com a civilização maia no fim do primeiro milênio. Reduzir, eliminar ou corrigir atentados ao meio ambiente pode ser conseguido com os conhecimentos científicos e tecnológicos de hoje. Melhorar
os homens parece mais difícil.
 

 

José Goldemberg, ex-ministro da Ciência e Tecnologia, é cientista.

 

A GUERRA DOS SEXOS


 

Se você pensa que seus genes resultam de uma combinação idílica entre os genes de seus pais, está enganado. Pode ter havido amor no ato da concepção, mas, na formação de seu patrimônio genético, não. Os genes que vieram de seus pais disputaram acirradamente para assumir posições de destaque na codificação dos mais insignificantes detalhes do futuro organismo: do gene que codifica a proteína castanha da cor dos seus olhos ao que regula as características da produção de insulina pelo pâncreas, os
genes mais aptos silenciaram a voz do progenitor mais fraco.
 

A genética clássica imaginava que no embrião os genes maternos e paternos se dispunham aos pares, ordenadamente, para bem orquestrar o desenvolvimento do novo organismo. As características finais dos filhos seriam determinadas pelo arranjo organizado desses genes: viessem do pai ou da mãe, as propriedades seriam exatamente as mesmas. 

 

De fato, tanto faz, para o filho, se o pai tem olhos castanhos e a mãe os tem azuis, ou vice-versa: genes para olhos castanhos são sempre dominantes. Quando formam um par com os que codificam cor azul, impõem sua característica -seja ela de origem paterna ou materna.

 

Esse dogma da genética clássica foi abalado nos anos 90. Quando se trata da fecundação, a relação entre os sexos dos pais pode ser tudo, menos pacífica. Os genes masculinos e femininos que se juntam no embrião não constituem simplesmente a semente da vida, eles são a essência dela. Para ilustrar essa verdade universal, o biólogo inglês Richard Dawkins disse que uma galinha é a melhor forma que o ovo encontrou para fazer outro ovo.

 

Como o espermatozóide e o óvulo carregam apenas metade dos genes necessários para a criação do novo ser, cada característica do futuro indivíduo será controlada por um gene que veio do pai e por outro que veio da mãe. A dominância que se estabelecerá entre os componentes do par terá como objetivo último proporcionar ao embrião a maior chance possível de permanecer vivo até a maturidade sexual, quando finalmente terá a oportunidade de transmitir às gerações futuras os genes recebidos de seus
ancestrais. Como regra, genes apáticos, que não souberam se impor à vontade dos genes do cônjuge, tendem a desaparecer do repertório genético da espécie. Os genes que chegaram até nós só o fizeram porque elaboraram
estratégias eficazes para dominar os que foram herdados do sexo oposto.
 

 

Como os genes são moléculas de determinada estrutura química, o embrião em desenvolvimento é o campo de batalha de uma guerra molecular na disputa de posições privilegiadas no genoma que está sendo criado.

 

No calor da luta, os genes maternos tentam silenciar os paternos e vice-versa por meio de mecanismos bioquímicos pouco conhecidos, mas muito estudados nos últimos anos. Veja o caso dos genes que controlam o crescimento fetal: a intenção dos genes da mãe é manter o crescimento do
feto dentro de determinados limites, para evitar problemas de parto e consumo excessivo de energia, afinal, quanto maior o filhote, mais energia a mãe terá de investir na sua gestação. O interesse dos genes masculinos é oposto: quanto maior o feto ao nascer, maior a probabilidade de sobrevivência e propagação das características paternas.
 

 

A existência de interesses sexuais conflitantes em relação ao tamanho do embrião está bem documentada em animais e plantas. Mas é nos mamíferos que ela se estabelece de maneira mais nítida, porque neles o feto parasita o organismo materno por longo período de tempo. O interesse evolucionista do macho é fecundar o maior número de fêmeas que puder e conseguir que elas invistam o máximo de energia na gravidez para garantir filhotes mais fortes. O da fêmea é controlar o crescimento fetal e poupar energia para futuras concepções (quem sabe em parceria com outros machos para gerar prole com maior diversidade genética).

 

O fenômeno descrito acima, segundo o qual um gene silencia o do sexo oposto, é chamado de "imprinting". Em ratos, ele foi demonstrado com elegância por um grupo da Universidade de Princeton: fêmeas monogâmicas acasaladas com machos poligâmicos deram à luz recém-nascidos que pesavam mais do que 20 gramas. O acasalamento inverso, fêmeas poligâmicas com machos monogâmicos, geraram filhotes com dez gramas ao nascer.

 

Conclusão: quanto maior a oferta de espermatozóides diferentes geneticamente, mais ferozes se tornam os genes femininos para silenciar os masculinos no controle do tamanho do feto e garantir menor investimento energético em cada gravidez.

 

Charles Darwin foi o primeiro a imaginar que qualquer comportamento repetido com regularidade por uma espécie tivesse sua lógica baseada na dinâmica da seleção natural. O exemplo mais óbvio é a atração que os animais sentem pelo sexo oposto. Na síntese que fez dos pensamentos de Darwin, Theodosius Dobzhansky, um dos maiores geneticistas do século 20, percebeu que qualquer fenômeno biológico, para ser entendido, precisa ser analisado à luz da seleção natural -ou não terá sentido algum. O que nenhum dos dois cientistas imaginou foi que a seleção natural fosse um acontecimento que se iniciasse tão precocemente na vida de cada organismo, com a disputa acirrada entre os genes maternos e paternos egoisticamente empenhados em adquirir posição de destaque para garantir sobrevivência nas gerações futuras.

 

 

Dráuzio Varella é cientista.

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