(Marcus Cicero - 3 de Janeiro 106 a.C. - Formies, 7 de Dezembro 43 a.C. Filósofo, orador, escritor, advogado e político romano)
A amizade penetra nos menores detalhes da nossa vida, o que torna frequentes as ocasiões de ofensas e melindres: o sábio deve evitá-las, destruí-las ou suportá-las quando necessário for.
A única ocasião em que não devemos deixar de ofender um amigo, é quando se trata de lhe dizer a verdade e de lhe provar assim a nossa fidelidade.
Porque não devemos deixar de sobreavisar os nossos amigos, ainda quando se trate de os repreender. E nós mesmos devemos levar isto em boa vontade, quando tais repreensões são ditadas pelo bem querer.
Todavia, sou forçado a confessá-lo, como disse o nosso Terêncio no seu Adriana: "A benevolência gera a amizade; a verdade, o ódio".
Sem dúvida a verdade é molesta se produz o ódio, este veneno da amizade. Mas a magnanimidade é-o ainda mais, porque para a indulgência culpável, pelas faltas de um amigo, ela deixa-o precipitar-se nas suas ruínas.
Mas a falta mais grave é a que despreza a verdade e se deixa conduzir ao mal pelaadulação. Este ponto reclama toda a nossa vigilância e atenção.
Afastemos o ácido das nossas advertências, a injúria dos nossos reproches; que a nossa complacência (sirvo-me voluntário da expressão de Terêncio) seja farta de urbanidade; mas longe da nossa baixa adulação, este auxiliar indigno de um amigo e mesmo de um homem livre. Lembremo-nos que se vive com um amigo diferentemente de como se vive com um tirano.
Quanto àquele cujos ouvidos se fecharam à verdade ao ponto de não entender mesmo a boca do amigo, é preciso desesperar da sua salvação.
Conhece-se a frase de Catão que, entre outras, ficou proverbial:
"A amargura dos nossos inimigos, serve-nos bem mais que a doçura dos nossos amigos: aqueles dizem-nos quase sempre a verdade; estes, jamais".
O que lia de desarrazoado é que os amigos que se advertem não se encolerizem do que deve causar-lhes pena, e o façam ao contrário do que deve não lhes causar henhuma. Em lugar de se encolerizar de haver mal agido, eles o são de ser repreendidos. Enquanto que, ao contrário, eles deveriam afligir-se da falta e alegrar-se da censura.
Marcus Cícero - Diálogo sobre a Amizade
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SOBRE MARCUS CÍCERO
Marcus Tullius Cicero (em Latim) (Arpino, 3 de Janeiro 106 a.C. - Formies, 7 de Dezembro 43 a.C.). Filósofo, orador, escritor, advogado e político romano Cícero é, com Demóstenes, o melhor expoente da oratória clássica. Pela sua voz, postura, génio, paixão e capacidade de improvisação está dotado para o exercício da eloquência.
******************** Cícero erigiu um dos mais importantes pilares do pensamento romano de sua época. Suas concepções filosóficas, morais, jurídicas e religiosas foram muito respeitadas por seus contemporâneos e o são até nossos dias.
Em “Da República” defende, como sistema político ideal, um modelo misto de aristocracia e de governo popular. Fundamentando suas idéias, analisa e discute, sob a forma de diálogo, as características do verdadeiro homem público, igualdade de direitos, injustiça, tirania, o culto da família e do lar doméstico, a dissolução dos costumes gregos e romanos.
O ponto alto encontra-se no Livro Sexto, que durante anos foi o único texto conhecido, sob o nome de O Sonho de Cipião (“Somnium Scipionis”). Nesse Livro, em estilo elegante e espiritualista defende, essencialmente, o dogma da existência de Deus e da imortalidade da alma. É uma obra-prima. (Nélson Jahr Garcia)
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