" A carreira de Antonin Artaud, um dos últimos grandes exemplos do período heróico do modernismo literário, resume intensamente estas reavaliações. Sua obra inclui verso, prosa, roteiros para filmes, escritos sobre cinema, pintura e literatura; ensaios, críticas corrosivas e polêmicas sobre o teatro; várias peças de teatro e notas para vários projetos teatrais não realizados, entre os quais uma ópera; uma novela histórica; um monólogo dramático em quatro partes escrito para o rádio; ensaios sobre o culto do peiote entre os índios tarahumara; aparições radiantes em dois grandes filmes (O Napoleão de Gance e A Paixão de Joana d'Arc de Dreyer) e várias outras menores; e centenas de cartas, sua forma dramática mais completa - constituindo um corpus partido, automutilado, uma vasta coleção de fragmentos. O que ele legou à posteridade não foram obras de arte 
completas, mas uma presença singular, uma poética, uma estética do pensamento, umateologia da cultura e uma fenomenoligia do sofrimento. Em Artaud, o artista como visionário cristaliza-se, pela primeira vez, uma figura do artista como pura vítima de sua
consciência. O que está prefigurado na rancorosa poesia em prosa de Baudelaire e no 
relato de uma estadia no inferno de Rimbaud torna-se a afirmação de Artaud, de sua infatigável e agonizante consciência da inadequação de sua própria autoconsciência -os tormentos de uma sensibilidade que se julga irreparavelmente alienada do pensamento. Para a qual pensar e usar a linguagem torna-se um perpétuo calvário."

(Trecho do texto Abordando Artaud, de Susan Sontag, do livro Sob o Signo de Saturno, editado pela L&PM e considerado um dos melhores escritos sobre a obra de Artaud)

"Quem sou eu?
De onde venho?
Sou Antonin Artaud
e basta que eu o diga
Como só eu o sei dizer
e imediatamente
hão de ver meu corpo
atual,
voar em pedaços
e se juntar
sob dez mil aspectos
diversos.
Um novo corpo
no qual nunca mais
poderão esquecer.

Eu, Antonin Artaud, sou meu filho,
meu pai,
minha mãe,
e eu mesmo.
Eu represento Antonin Artaud!
Estou sempre morto.

Mas um vivo morto,
Um morto vivo.
Sou um morto
Sempre vivo.
A tragédia em cena já não me basta.
Quero transportá-la para minha vida.

Eu represento totalmente a minha vida.

Onde as pessoas procuram criar obras
de arte, eu pretendo mostrar o meu
espírito.
Não concebo uma obra de arte
dissociada da vida.

Eu, o senhor Antonin Artaud,
nascido em Marseille
no dia 4 de setembro de 1896,
eu sou Satã e eu sou Deus,
e pouco me importa a Virgem Maria.

 

 

 

 

 

Le corps de terre
1946

Le téâtre de la cruauté
1946

La morte et l'homme
1946

L' inca
1946

 

 

O Dramaturgo Antonin Artaud e o pintor Vincent Van Gogh tem em comum o fato de tem sido internados em instituições asilares. A obra e a vida do pintor inspiraram Artaud no ensaio poético Van Gogh, o Suicidado pela Sociedade. Confira trecho logo abaixo:

"Pode-se falar da boa saúde mental de Van Gogh, que em toda a sua vida apenas assou uma das mãos e, fora isso, limitou-se a cortar a orelha esquerda numa ocasião. Num mundo no qual diariamente comem vagina assada com molho verde ou sexo de recém-nascido flagelado e triturado, assim que sai do sexo materno. E isso não é uma imagem, mas sim um fato abundante e cotidianamente repetido e praticado no mundo todo. 
E assim é que a vida atual, por mais delirante que possa parecer esta afirmação, mantém sua velha atmosfera de depravação, anarquia, desordem, delírio, perturbação, loucura crônica, inércia burguesa, anomalia psíquica (pois não é o homem, mas sim o mundo que se tornou anormal), proposital desonestidade e notória hipocrisia, absoluto desprezo por tudo que tem uma linguagem e reivindicação de uma ordem inteiramente baseada no cumprimento de uma primitiva injustiça; em suma, de crime organizado. Isso vai mal porque a consciência enferma mostra o máximo interesse, nesse momento, em não recuperar-se da sua enfermidade. Por isso, uma sociedade infecta inventou a psiquiatria, para defender-se das investigações feitas por algumas inteligências extraordinariamente lúcidas, cujas faculdades de adivinhação a incomodavam.
E o que é um autêntico louco? É um homem que preferiu ficar louco, no sentido socialmente aceito, em vez de trair uma determinada idéia superior de honra humana. Assim, a sociedade mandou estrangular nos seus manicômios todos aqueles dos quais queria desembaraçar-se ou defender-se porque se recusavam a ser cúmplices em algumas imensas sujeiras. Pois o louco é o homem que a sociedade não quer ouvir e que é impedido de enunciar certas verdades intoleráveis."

 

Breve Cronologia

 

1896 - Descendente de Gregos tanto pelo lado paterno como materno, Antonin Marie - Joseph Artaud nasce a 4 de setembro, em Marselha
1923 - Publica seu primeiro livro de poemas Tric-trac du Ciel que, mais tarde, vem a renegar.
1924 - Junta-se ao movimento Surrealista. Passa a dedicar-se também ao cinema, trabalhando com alguns dos principais diretores da época. Seus papeis de maior destaque foram o monge apaixonado pela Joana D'arc, de Carl Dreyer (1928), Danton no Napoleon de Abel Grance (1934) e Salvonarola na Lucrecia Borgia, também de Grance (1934).
1925 - Publicação de O Umbigo dos Limbos e de O Pesa de nervos. Primeiro trabalho de direção teatral com Au Pied Du Murc, de Aragon
1926 - Funda o teatro Alfred JJarry, com Roger Vitrac e Robert Aron. Rompe com os surrealistas em novembro, saindo junto com Desno, Soupalt, Vitrac e outros, quando o movimento surrealista decide aderir a marxismo e ao PC.
1927 - Primeiras produções do teatro Alfred Jarry. escreve o roteiro para cinema A Concha e o Clerigo, que estréia em 1928 sob a direção de Germaine Dullac.
1929 - O Teatro Alfre Jarry acaba.
1931 - Assiste em Paris a uma montagem de um grupo Teatral de Bali, experiência que o orienta na elaboração e desenvolvimento de suas idéias sob o Teatro da Crueldade, dando palestras e redigindo artigos, cartas e manifestos, reunidos em O Teatro e seu Duplo, publicado em 1938.
1932/33 - Publicação do Primeiro e do segundo Manifestos do Teatro da Crueldade
1934 - Publica Heliogabalo
1935 - estréia de Os Canse, peça de sua autoria escrita a partir de um texto de Shelley e de um episodio das "Crônicas Italiana", de Stendhal - a peça fracassa ficando apenas duas semanas em cartaz.
1936 - Em fevereiro, desembarca no México apos passar por Cuba. Volta a França em Novembro.
1937 - Publicação de Les Nouvelles Revelations de I'Être & Viagem ao Pais dos Tarahumaras, fruto de sua viagem ao México. Viagem a Irlanda. Na volta é imediatamente internado por autoridades sob acusação de ataque a tripulantes do navio (Artaud alega que se defendeu de uma invasão noturna ao seu camarote)
1938 - Publicação de O Teatro e seu Duplo. Transferido para um hospício em Paris; permanecera internado em asilos e hospícios ate 1946.
1943 - É transferido para o asilo de Rodez, dirigido por Gaston Ferdiere.
1946 - Com o fim da Segunda Guerra, intelectuais de destaque mobilizam-se para tirar Artaud de Rodez e garantir sua subsistência. Entre outros, participaram dessa mobilização André Breton, Picasso, Albert Camus, Jean Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Jean Louis Barrault e Paul Eluard. Artaud passa a morar na Clinica de Ivry, nos arredores de Paris, como paciente voluntário.
1947 - Publica Artaud, o Momo e Van Gogh, O Suicidado da Sociedade. Gravação de Para Acabar com o Julgamento de Deus.
1948 - A transmissão de Para Acabar com o Julgamento de Deus, marcada para 16 de janeiro, é cancelada na véspera por ordem da direção da radio estatal.


Em 4 de Março de 1948, Artaud é encontrado morto em seu quarto de hospicio de Ivry. Estava aos pés da cama com um sapato na mão.

"Pelo crivo dos vossos 
diplomas passa uma
juventude abatida,
perdida".
 

Antonin Artaud (1896 - 1948)

 


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